O Fora do Eixo possivelmente é o movimento cultural brasileiro mais debatido neste século, e nos últimos anos extrapolou o campo da cultura alcançando destaque também entre os movimentos sociais brasileiros.
Este debate vigoroso envolve temas polêmicos, acusações diversas, e de certa forma tende a construir mitos e avaliações pouco criteriosas, que ao mesmo tempo que alimentam as polêmicas, jogam luz sobre diversos temas fundamentais da sociedade brasileira no século XXI, o que aumenta a importância deste movimento.
Para tentar esclarecer e ao mesmo tempo provocar ainda mais a discussão sobre este tema, preparamos uma sequência de perguntas e respostas curtas e objetivas, além de uma série de artigos e links que ajudam a compreender um pouco mais do trabalho desenvolvido pela rede nesta última década, ao mesmo tempo que podem apontar para os próximos passos e caminhos que o movimento se propõe a trilhar.
PERGUNTAS FREQUENTES
Quando e como surge o Fora do Eixo?
O Fora do Eixo nasce no final de 2005, a partir de uma experiência embrionária desenvolvida na cidade de Cuiabá, por um coletivo cultural chamado Espaço Cubo. Depois de 03 anos de atividades locais e desenvolvimento de algumas tecnologias sociais e processos de gestão coletiva, os membros do Espaço Cubo iniciam contatos com produtores culturais de outras cidades brasileiras dando início ao movimento que consolidaria a rede Fora do Eixo no início de 2006, numa primeira reunião realizada durante o Grito Rock, na cidade de Cuiabá. Neste momento, mais de 30 produtores, de 09 estados brasileiros, lançam o movimento e iniciam as atividades da rede.
Nesta fase inicial, a rede se articula a partir da música independente, tendo como princípios básicos o tripê: circulação de pessoas (artistas, produtores e jornalistas em especial); distribuição de produtos culturais e comunicação.
Conheça um pouco mais do Espaço Cubo:
Israel do Vale: A REVOLUÇÃO [IN(TER)DEPENDENTE] VIRÁ DE CUIABÁ
1) http://futurodamusica.zip.net/arch2007-03-25_2007-03-31.html
2) http://futurodamusica.zip.net/arch2007-04-01_2007-04-07.html
Quando e como surge o Fora do Eixo?
O Fora do Eixo nasce no final de 2005, a partir de uma experiência embrionária desenvolvida na cidade de Cuiabá, por um coletivo cultural chamado Espaço Cubo. Depois de 03 anos de atividades locais e desenvolvimento de algumas tecnologias sociais e processos de gestão coletiva, os membros do Espaço Cubo iniciam contatos com produtores culturais de outras cidades brasileiras dando início ao movimento que consolidaria a rede Fora do Eixo no início de 2006, numa primeira reunião realizada durante o Grito Rock, na cidade de Cuiabá. Neste momento, mais de 30 produtores, de 09 estados brasileiros, lançam o movimento e iniciam as atividades da rede.
Nesta fase inicial, a rede se articula a partir da música independente, tendo como princípios básicos o tripê: circulação de pessoas (artistas, produtores e jornalistas em especial); distribuição de produtos culturais e comunicação.
Conheça um pouco mais do Espaço Cubo:
Israel do Vale: A REVOLUÇÃO [IN(TER)DEPENDENTE] VIRÁ DE CUIABÁ
1) http://futurodamusica.zip.net/arch2007-03-25_2007-03-31.html
2) http://futurodamusica.zip.net/arch2007-04-01_2007-04-07.html
O que é o Fora do Eixo?
Rede de cultura, comunicação e ativismo que conecta pessoas, coletivos, casas e redes em 26 estados do Brasil mais o DF e com parceiros em 15 países da América Latina. A rede atua sob os princípios da colaboração, da autonomia, do midialivrismo e do compartilhamento livre de conhecimentos. Em uma década de atuação fomentou a criação de dezenas de coletivos, casas coletivas e projetos no Brasil e em outros países, que por sua vez, impulsionaram o desenvolvimento de outras redes, tais como, a Rede Brasil de Festivais, a Universidade das Culturas, a Cultura de Red e a mais conhecida delas – a Mídia NINJA.
Quais os princípios debatidos no primeiro encontro de 2016 e que orientaram o desenvolvimento do FDE?
Alguns pontos definidos neste primeiro encontro foram fundamentais para os desdobramentos históricos e de certa forma seguem orientando a rede. Desde o início o Fora do Eixo definiu-se como:
1) Um movimento de realizadores, que tem na ação coletiva as bases de construção e organização da rede.
2) Um movimento mutante e político, que mais do que organizar um circuito cultural, articulava-se para apresentar novas alternativas autogestionárias, entendendo os limites e contradições do atual sistema capitalista e a necessidade de sua superação.
3) Um movimento que entendia a cultura a partir de sua perspectiva antropológica e não exclusivamente artística, e que deveriam caminhar junto com os processos de transformação social e comportamental.
4) Um movimento social que a partir da cultura e da ação coletiva debateria e desenvolveria novos aplicativos para o Comum.
5) Um movimento de comunicação, que a partir das novas mídias, desenvolveria narrativas autorais e experimentaria novas linguagens e formas de diálogo com a sociedade.
6) Uma rede distribuída, que se articularia a partir do conceito do “glocal” e da máxima: “Pensar globalmente, agir localmente.”
7) Um movimento autônomo, que a partir de um conjunto de valores comunitários e de uma perspectiva antropofágica, construiria sua organização social, sem qualquer tipo de enquadramento ideológico externo.
8) Como um movimento aberto, com a adesão livre e consciente, e responsabilidade compartilhada.
9) Como um movimento que não tinha apenas o Fora do Eixo como recorte geográfico (produtores culturais fora do eixo Rio-SP e grandes centros), mas também como uma perspectiva conceitual (fora do eixo e do padrão previamente estabelecido para as relações sociais)
10) Como um movimento hacker, que por sua autonomia estaria preparado para o diálogo institucional, a incidência política e as contradições de transformar o mundo fazendo parte dele.
11) Como um movimento que tem na sua prática o seu programa, e que não precisamos esperar que tudo mude para vivermos conforme acreditamos que o mundo deva ser.
12) Como um movimento enraizado num Brasil Profundo e no intercâmbio com as grandes cidades que tem na diversidade do povo brasileiro e na criatividade para lidar com as adversidades a nossa inspiração e raiz antropofágica.
Estes princípios, que já aparecem de forma embrionária no primeiro encontro da rede em 2006, e que consolidam-se na nossa carta de princípios escrita no II Congresso Fora do Eixo, em Rio Branco-AC, no ano de 2009, conduzem o Fora do Eixo em toda a sua trajetória, e de certa forma também nos diferencia de boa parte das demais organizações sociais.
Conheça a nossa carta de princípios.
Por que o nome Fora do Eixo?
A origem do nome Fora do Eixo remete a um contexto de recorte geográfico, que passou também a orientar conceitualmente a rede. Historicamente, os investimentos em cultura no Brasil foram demasiadamente concentrados no eixo Rio-São Paulo, destino obrigatório de artistas e produtores que sonhavam construir suas carreiras. Esta centralização fez com que toda uma diversidade cultural fosse sufocada por um conjunto de obstáculos, que, ao mesmo tempo que solapava esta produção cultural, possibilitava também seu encontro justamente nestas dificuldades. A partir de uma “cumplicidade” de adversidades percebemos que era possível conectar esta produção cultural Fora do Eixo, e que para isso era fundamental também buscar alternativas para além do jogo de cartas marcadas do Mercado. Era necessário valorizar o que estava também fora do eixo civilizatório, e que o interior brasileiro, o que chamamos de Brasil Profundo, tem de mais rico como resistência: a criatividade e a sua capacidade de superar adversidades com solidariedade e cooperação. Assim, nos reconhecemos Fora do Eixo, por nos reconhecermos parte do povo brasileiro, fora da institucionalidade, fora da academia, fora do mercado e dos grandes negócios, fora da moda, fora da ordem.
Referência: Artigo: Sertão Fora do Eixo – O Brasil Profundo (Almir Paraca e Fred Maia).
O FORA DO EIXO NA MÚSICA
Qual a importância da música para o FDE?
A música é o primeiro ponto de conexão, e é a partir dela que construímos todas as tecnologias sociais que hoje sustentam a rede. É importante inclusive recordar esta trajetória brevemente, para apresentar também os resultados atingidos pela rede na música.
Surge em 2002, em Cuiabá um coletivo chamado Espaço Cubo, que começa a fazer um festival independente, e desenvolve entre 2002 e 2005 um inovador arranjo produtivo local, baseado numa moeda complementar, o famoso “Cubo Card”, e em um eficiente centro de mídia alternativa. A partir de 2005, esta experiência passa a ter contato com outros produtores fora de Cuiabá, e uma rede começa a se organizar na Música Brasileira.
Em pouco mais de 02 anos, este trabalho leva bandas de Cuiabá, um lugar completamente desconhecido musicalmente, ao primeiro lugar da revista Rolling Stone Brasil, em 2008, com o prêmio de melhor disco do ano dado a banda Macaco Bong. Uma série de bandas do interior e de regiões distantes do país passam a circular, grupos do interior consolidam carreira em São Paulo, jornalistas que até então não saíam de SP e RJ começam a circular por todo o país enquanto o sólido circuito de festivais independentes de música era construído.
Entre 2005 e 2010, o surgimento do Fora do Eixo e da Abrafin, somados a política cultural do MINC de Gilberto Gil e Juca Ferreira forjou um novo ecossistema para a música brasileira, e foi um terreno muito fértil tanto para novas experiências como para diálogos entre elas, como ocorria dentro da Rede Música Brasil.
A partir da organização de um novo segmento independente na música era possível entender as transformações que a nova sociedade digital imprimia ao mercado, ao estado e as relações sociais, e imprimir de forma ousada algumas tecnologias e práticas coletivas mais radicais, o que deu origem a toda a arquitetura que hoje sustenta o Fora do Eixo.
A força e a potência imprimida pela Música gerou uma série de ferramentas e aplicativos de gestão do comum, que hoje estão espalhados, em diversas outras redes e coletivos num amplo processo de perda do controle. Ao mesmo tempo, pelo fato de ser pioneira e ter um trabalho em rede desenvolvido há quase uma década, temos desdobramentos interessantes com o surgimento de outras redes incubadas pelo FDE e que passam a caminhar com suas próprias pernas dentro da música. A Rede Brasil de Festivais, o portal TNB e o festival Grito Rock são hoje os principais exemplos destes desdobramentos e já atuam basicamente como redes autogeridas a partir da experiência e do trabalho desenvolvido pelo FDE.
Além disso, o acúmulo do trabalho da rede no Brasil inspirou e catalizou o surgimento da Global Music Network, uma rede global de música que desde 2012 começa a se organizar e se consolidar tendo como referência o trabalho desenvolvido no Brasil, numa grande parceria entre o Fora do Eixo e o Un-Convention. E outras redes internacionais seguem surgindo em outros países em amplo diálogo conosco, como a Redada na Venezuela, o Telartes na Bolívia e o Off Axis, na Inglaterra.
Como o FDE enxerga o mercado fonográfico?
O nascimento do Fora do Eixo está intimamente ligado a uma crise instaurada no mercado fonográfico no início do século XXI graças ao surgimento da internet e de novas formas de produzir e consumir música. O surgimento do P2P trouxe junto consigo uma crise de um sistema de intermediários e tudo isso abriu novas possibilidades para o setor da música e aqueceu o chamado mercado independente. O FDE busca ocupar um espaço justamente no momento que esta crise acontece, e aproveita-se dela para tentar construir novos arranjos produtivos que não se pautem apenas pela lógica comercial voltada para o lucro.
Mais do que reinventar modelos de negócios, o que o Fora do Eixo apresenta é uma nova lógica de produção que se paute pela colaboração e construção coletiva, e que busque quebrar o sentido centralizador e vertical do mercado, visando sua democratização e descentralização. Neste sentido surgem as moedas complementares e uma luta para que todos os setores envolvidos nesta cadeia produtiva se envolvam neste debate e construção. Ao mesmo tempo, o FDE luta cotidianamente para que o poder público compreenda este novo momento e fomente novas experiências para que este possível novo mercado, mais justo e democrático, surja e consolide-se. Assim, para o FDE, o mercado fonográfico foi o espaço para a criação de uma nova lógica econômica, e um grande laboratório para uma nova economia colaborativa.
Contudo, é importante registrar que esta nova lógica teve e tem ainda uma dificuldade enorme de aceitação dentro do próprio mercado musical, o que gera uma zona permanente de atrito e conflito. Boa parte destes conflitos estão justamente na forma como as expectativas sobre a nova plataforma econômica são construídas. Buscar compreender o trabalho do FDE a partir da lógica individualista do mercado necessariamente vai construir distorções negativas. O FDE não pode ser entendido como uma produtora que leva o artista ao sucesso, mas como uma rede onde se constrói junto uma carreira. Os rápidos e eficientes resultados alcançados pelo FDE fizeram com que uma grande expectativa fosse construída pela rede, que acabou sendo mais cobrada que o Ministério da Cultura e a Funarte no fomento da música brasileira. Sempre deixamos claro que nosso sistema dependia de uma ampla ação coletiva e colaborativa inclusive para pressionar de forma mais efetiva o investimento do Estado, que é parte primordial deste arranjo.
O fim de uma política pública efetiva no plano federal, aliado a dificuldade de músicos em se auto-organizarem criou um contexto difícil nos últimos anos, com um claro retrocesso para este novo sistema emergente da música brasileira. No entanto, toda esta tecnologia social e inteligência construíram bases sólidas que estão prontas para serem estimuladas, através destas plataformas que citamos anteriormente, e o FDE seguirá firme na busca de consolidação destas novas plataformas colaborativas na música e na cultura brasileira.
Quais as ações que o FDE desenvolve hoje na música?
Com o passar dos anos, a frente de música do FDE foi ganhando autonomia e construindo uma rede própria de articulação em parceria com outros grupos, coletivos e redes, e hoje é responsável por 03 grandes projetos: Rede Brasil de Festivais, TNB (Toque no Brasil) e festival Grito Rock. Além disso, os coletivos organizam diversas noites fora do eixo por todo o Brasil, além de projetos de turnês nacionais e internacionais, que hoje acontecem a partir das 03 grandes plataformas mencionadas acima.
Qual a relação do FDE com a Abrafin, e posteriormente com a RBF?
O Fora do Eixo é um movimento que se consolidou paralelamente a Abrafin e mantém de certa forma uma relação muito próxima a entidade. Entendendo a necessidade de organizar outros setores da música brasileira além dos festivais, a rede se constitui e passa a caminhar lado a lado com a Abrafin. Ao mesmo tempo, produtores de festivais FDE filiados a Abrafin desde o primeiro momento disponibilizam força de trabalho e tempo para a organização da entidade, por entender o quão fundamental era a organização coletiva para a música brasileira. Nossa relação sempre foi de estímulo e dedicação, independente do espaço institucional ocupado dentro da entidade e acreditamos ser fundamental todo o trabalho realizado pelos festivais neste percurso recente do associativismo e criação de redes na música brasileira.
O que é a Rede Brasil de Festivais?
A Rede Brasil de Festivais é um desdobramento do processo encadeado a princípio pela Abrafin. Uma consequência das escolhas e caminhos percorridos e visualizados por parte dos festivais independentes brasileiros. Desde o início da Abrafin, em 2005, que dois projetos diferentes conviviam e buscavam espaços dentro e fora da entidade. De um lado uma lógica associativa mais protecionista que via na ação associativa uma forma de proteger e melhorar os negócios dos envolvidos, e de um outro lado uma lógica colaborativa que via na criação de um novo sistema de cooperação e trocas a forma viável de desencadear um novo mercado musical brasileiro. Esta oposição, que no momento inicial da entidade tinha uma maioria ligada ao primeiro grupo citado, foi se acirrando a partir do crescimento desta nova lógica de rede colaborativa dentro da Abrafin. O FdE sempre representou este segundo grupo dentro da entidade, e desde a primeira gestão já ocupou um espaço institucional justamente pela disponibilidade de seus membros em construir as ações coletivas. Ao mesmo tempo, esta lógica colaborativa estimulou o surgimento e desenvolvimento de dezenas de festivais independentes no Brasil, que passaram a visualizar na Abrafin seu espaço político de organização. No final de 2010 o FdE assume definitivamente a presidência da Abrafin e neste momento há um acirramento muito maior deste embate no interior da entidade. Nós entendíamos que os festivais tinham aumentado muito, naquele momento já tinham mais de 40 filiados, e uma fila enorme de pedidos de filiação, e que o próprio nascimento da Abrafin deu visibilidade a esta plataforma que se espalhou pelo país inteiro, junto com o Fora do Eixo.
Neste sentido, propusemos uma nova arquitetura, com a criação de circuitos regionais, para descentralizar a gestão e fazer acompanhamentos mais próximos. Ao mesmo tempo, a nova gestão fez a proposição de, ao criar os circuitos regionais, diminuir o número de edições necessárias para a entrada na entidade, porque acreditava ser perverso a lógica: faça 03 edições e se sobreviver entre para o grupo seleto dos vencedores, já que entendia-se que os festivais nas suas edições iniciais necessitam mais ainda de suporte, principalmente na troca com os festivais mais experientes.
Ao contrário disso, a proposta dos festivais que saíram da Abrafin, era que a entidade se fechasse, não recebendo mais filiados, o que para a maioria ia contra aos princípios associativos que deveriam marcar a organização. Existia uma visão clara entre o protecionismo deliberado pelos festivais que saíram e a necessidade de ampliar os diálogos e abrir a entidade para toda esta gama de festivais que tinham nascidos inspirados pela própria Abrafin.
A partir disso, como existia uma mudança organizacional entendida como necessária pela maioria dos festivais filiados naquele momento, implementamos os circuitos regionais e descentralizamos o processo de gestão, enquanto os insatisfeitos saíram e montaram uma outra entidade, a FBA (Festivais Brasileiros Associados). No nosso entendimento, a saída e nascimento de novas entidades fazem parte do processo de amadurecimento político do próprio segmento musical brasileiro. Pessoas com ideias similares se juntam e trabalham a partir disso. Hoje a rede se divide em 06 circuitos regionais, com centenas de festivais integrados.
O que é a Rede Música Brasil?
A Rede Música Brasil foi criada em 2009, a partir da articulação entre setores organizados da Música Brasileira e o Centro de Música da Funarte. Inicialmente, o Ministério da Cultura provocou algumas entidades e movimentos a se envolverem no processo de construção da Feira Música Brasil, ainda em 2007 e a partir deste diálogo, durante a Feira da Música de Fortaleza em 2009 foi realizado o primeiro encontro oficial da Rede Música Brasil, que passou a ser constituída por representantes das seguintes entidades: SEBRAE, ABMI, ABEART, ABRAFIN, ABEM, ABER, ABPD, ARPUB, BM&A, CUFA, FNM, FED. DAS COOPERATIVAS DE MÚSICA, FORA DO EIXO, CASAS ASSOCIADAS e MPB. Durante dois anos um rico debate foi estabelecido e uma série de conquistas alcançadas. A partir de 2011, com as mudanças no MinC este processo perdeu força, com o fechamento das portas para o diálogo institucional que outrora impulsionaram sua organização.
Como o FdE se relaciona com outros setores organizados da Música no Brasil e no Mundo?
Para o FdE todo o esforço para a conexão entre movimentos e organizações é válido e ocupa papel central em nossa rede. A crença na criação de espaços para a potencialização de uma ampla inteligência coletiva é o principal eixo de nossa ação política, e esta busca se dá a partir de um conjunto de valores e princípios estruturais para o debate. Como consequência desta priorização, hoje dialogamos com dezenas de entidades e setores organizados da música, seja por ação direta compartilhada, seja por diálogo em fóruns e encontros em eventos. Atualmente temos duas principais frentes de relacionamento: 1) Global Music Network (Rede Global de Música) 2) Grito Rock Mundo.
Algumas críticas ao Fora do Eixo relacionam-se ao pagamento de cachês para os artistas. Como o Fora do Eixo lida com a remuneração dos artistas? O FdE paga cachê?
Sim, o Fora do Eixo paga cachês e não existe nenhuma política interna da rede, e nem mesmo situações concretas que comprovem o contrário. O que existe sim, é uma nova política de remuneração, que envolve pagamentos em moeda corrente e também moedas complementares, pautadas em princípios de economia solidária, que orientam a ação econômica do Fora do Eixo, como é notório, e estão detalhadamente explicadas nas perguntas sobre o Banco FdE.
Outro fato importante que precisamos destacar é que a política de pagamento de cachê, ou de uma forma mais ampla, a questão da distribuição de renda em nosso país não pode ser uma responsabilidade exclusiva do FdE. Temos que lembrar que quando o FdE surgiu em 2005, a questão do cachê para bandas autorais fora das gravadoras nem era um tema, pois absolutamente não se remunerava estas atividades. Os artistas, para sobreviver eram obrigados a tocar música cover, ou procurar lugar em grupos populares, que tocavam ritmos e estilos musicais consolidados no mercado, como a música sertaneja, o pagode e o axé.
Essa era a realidade dos músicos em todo o país, e muitos deles inclusive optaram por ter a música apenas como um hobbie, e buscar outras formas de sustentabilidade para suas vidas. O que o FdE faz ao tentar construir um novo modelo de trabalho, pautados em princípios solidários, é justamente criar condições mínimas para que jovens dispostos a sobreviver de sua música tenham êxito e oportunidade de fazê-lo. Mas para isso, era fundamental mudar alguns padrões de comportamento, tanto de produtores, como dos próprios artistas. O glamour e padrão de sucesso ligado ao mercado musical devem ser substituídos por uma lógica mais pé no chão, e a compreensão por parte dos artistas, que nesta nova lógica, o sucesso é pagar as contas, e o artista é mais uma peça importante em toda uma cadeia produtiva que precisa ser potencializada.
Esta disputa de narrativa foi sempre um pilar importante nas ações que o FdE desenvolveu na música, e que ficaram imortalizadas pelo lema: Artista igual a Pedreiro, título do primeiro disco da banda cuiabana Macaco Bong, considerado o melhor disco do ano da Revista Rolling Stones Brasil, no ano de 2008.
É fundamental ressaltar, que o trabalho desenvolvido pelo FdE e por uma série de outros movimentos e produtores brasileiros nos últimos 10 anos foi responsável inclusive por uma mudança no mercado, onde saímos de uma realidade onde não existia remuneração e cachês para a música autoral no interior do Brasil, para um momento onde minimamente melhores condições de apresentação e remuneração foram apresentadas e definem o mercado musical brasileiro hoje, e este novo contexto é fruto justamente do trabalho articulado por diversos setores da música brasileira. Contudo, a ausência do Estado nos últimos anos freou um processo de aceleração deste novo mercado, e é fundamental que os movimentos organizados da música brasileira consigam se articular para pressionar a retomada de uma política pública efetiva para o fomento da música brasileira. O Fora do Eixo seguirá lutando para isso.
Quais os critérios adotados para a remuneração dos artistas?
Os critérios adotados para a remuneração dos artistas levam em consideração os critérios e a realidade do mercado independente. Paga-se o que pode, aceita quem quer a proposta, e honra-se o combinado, a partir das possibilidades reais. Sabemos que o mercado musical independente é muito incipiente no Brasil e temos que entender que existem 5570 municípios no Brasil e não apenas meia dúzia de cidades com um mercado aquecido, e desta forma, para consolidar uma carreira nacional é necessário ter conhecimento desta realidade diversa, e é desta forma que lidamos com a remuneração.
Cada coletivo em seu território negocia e oferece o que tem condição de pagar e o artista mede se vale ou não a pena investir na formação de público naquele lugar. A máxima cada caso é um caso aplica-se aqui. É importante inclusive ressaltar isso. O FdE é uma rede que expressa esta diversidade e neste sentido não tem uma política e ação única em relação a remuneração como também a uma série de outros temas. Cada território, coletivo e produtor tem autonomia e negocia diretamente com os artistas, contando com a rede na intermediação de contatos e facilitação do diálogo.
Especificamente para os festivais, o FdE sempre defendeu uma política de valorização do artista para além do pagamento do cachê, por entender que restringir o diálogo e a construção de uma nova cena independente ao debate sobre o cachê era além de reducionista, algo muito pouco inteligente. Os festivais independentes não são apenas fontes de remuneração tangível, e acreditamos que ele pode desempenhar um papel muito maior na carreira de um artista do que simplesmente remunerar um show. A potência de formação de público e reverberação em uma crítica especializada que um festival proporciona é muito maior que um show isolado do artista, e para isso é fundamental que o artista também visualize a importância de construção de uma carreira nacionalmente.
Temos que compreender que os festivais FdE acontecem fora do mercado consolidado dos grandes centros, e que tem custos de logística muito maiores, e um déficit de público para os novos artistas muito grandes. Neste sentido, não se trata de uma escolha pagar ou não pagar cachê, mas sim de um processo muito mais amplo, onde todas as partes precisam ter objetivos semelhantes para conseguirmos viabilizar um trabalho conjunto, onde a soma de esforços leve a consolidação deste novo mercado.
Exemplos de parcerias bem sucedidas entre festivais e bandas não faltam nesta nossa trajetória, e o investimento de alguns artistas nestas novas plataformas tiveram como resultado direto a consolidação de públicos em diversas cidades brasileiras, e consequentemente a consolidação de uma carreira nacional.
O FdE agencia artistas?
Não, o FDE não agencia artistas.
O FdE cobra dos artistas para se apresentarem ou cobra o agenciamento de shows?
Não, o FDE não cobra para os artistas se apresentarem e não cobra agenciamento dos shows.
O FdE privilegia uma panelinha de artistas em seus eventos?
Não. Inclusive foi a forma aberta e democrática que lidamos com os artistas em nossa história que levaram a uma série de distorções e leituras pouco generosas sobre nosso trabalho. Quando iniciamos nosso trabalho em rede tínhamos duas opções:
1) Escolher um número de artistas (panelinha) e dar conta das expectativas criadas para a sua carreira. 2) Ampliar ao máximo os artistas envolvidos, sem termos ainda uma estrutura que conseguisse dar conta de toda a expectativa gerada.
Sabíamos que a escolha de um pequeno grupo (panelinha) mesmo com a ampliação das possibilidades seria apenas uma atualização do modelo excludente utilizado pelas grandes gravadoras. Neste sentido, optamos por radicalizar no debate sobre alguns temas que iam além da própria cadeia produtiva da música, e colocamos em prática novas experiências, como as moedas complementares, que possibilitam uma discussão mais ampla sobre as raízes de um sistema que é excludente.
Além disso, criamos slogans e teses, como o “Artista Igual Pedreiro” que buscavam justamente propor um rearranjo da cadeia produtiva da música como única forma de enfrentarmos este sistema excludente. Esta postura, apesar de todo os ataques que vieram, era no nosso entendimento coerente com o que verdadeiramente estávamos propondo, a constituição de um novo movimento social a partir da cultura, que conseguisse entender a esfera cultural da vida social para além do mercado.
Como o FdE faz a curadoria dos seus eventos?
A curadoria dos eventos é descentralizada e cabe a cada coletivo e agente local definir os critérios curatoriais. O que fizemos foi desenvolver uma plataforma online, o TNB, que busca facilitar e otimizar este trabalho, e ao mesmo tempo democratizar o acesso dos artistas aos programadores. Com o TNB é possível democratizar o acesso para que mais artistas, independente dos contatos pessoais, possam se disponibilizar e dar visibilidade ao seu trabalho, chegando até os produtores, sem a necessidade de intermediários.
Existe uma curadoria política acima de critérios estéticos?
Como foi respondido na questão acima, o FdE não possui um processo centralizado de curadoria. Esta oposição entre estética e política é na verdade um falso dilema, e inclusive prejudicial para a organização do setor musical brasileiro. Durante o processo de consolidação de uma rede como o FdE foi fundamental um olhar expandido para a música brasileira, entendendo que a estética como única referência manteria uma concentração dos artistas selecionados para tocar, em eixos esteticamente mais desenvolvidos, e a partir disso os artistas de regiões mais distantes e do interior do Brasil continuariam excluídos, e nesse sentido adotamos critérios equânimes para a circulação de artistas. Essa política de curadoria inclusive foi fundamental para colocar no mapa uma série de novos artistas e cidades, e assim fomentar o surgimento e desenvolvimento da música autoral em todo o Brasil. Precisamos superar esta dicotomia falsa entre Política e Estética se quisermos realmente construir plataformas que possam democratizar as oportunidades, e ao mesmo tempo garantir que mais pessoas desenvolvam sua atividade artística, independente do que o mercado condiciona e chancela. Apenas com uma ampla atuação coletiva e política é que poderemos dar conta de todos os anseios e expressões estéticas de uma sociedade tão diversa como a brasileira.
O FdE é contra o ECAD?
O FDE não é contra a entidade ECAD especificamente, mas contra a política de direito autoral praticada no Brasil por esta instituição, que historicamente caminhou para o controle das editoras e gravadoras multinacionais, priorizando um número reduzido de artistas na remuneração, ao mesmo tempo que criava uma política ostensiva de arrecadação. Enquanto movimento temos uma posição de radicalização em licenças livres para o direito autoral, liberando todo o conteúdo que produzimos, entendendo que ele é do Comum e Público. Contudo respeitamos grupos e movimentos que acreditam na necessidade de assegurar a propriedade intelectual, mas acreditamos que temos que ter uma lei de direito autoral que também permita com que novas licenças e processos de liberação de direitos autorais possam coexistir e que possamos desburocratizar as licenças e a liberação, da mesma forma que podemos democratizar a distribuição dos recursos arrecadados.
Qual o papel do FdE na CPI do ECAD?
As irregularidades e arbitrariedades do ECAD foram alvo de amplo debate no setor musical em toda a década passada. O FdE, como movimento com forte atuação no setor musical brasileiro neste período, esteve junto com uma série de outros movimentos e artistas envolvidos nesta discussão, e mais do que isso, lidamos no dia-a-dia com a política ostensiva de cobrança do ECAD nos territórios.
Mesmo organizando eventos com artistas independentes que cantavam músicas autorais, produtores do interior do Brasil tem muita dificuldade nas negociações com o ECAD, mesmo contando muitas vezes com a anuência e disposição dos artistas que se apresentam. Neste sentido, lutar por uma melhor regulamentação do ECAD, para evitar estas arbitrariedades, era fundamental para uma rede ligada a cadeia produtiva da Música, e que está presente prioritariamente no interior do Brasil.
Uma das formas de fazer esta luta é com o diálogo institucional, e nós do Fora do Eixo nos reunimos com o senador Randolfe Rodrigues, logo no início de 2011, e levamos até ele o tema, colocando a importância para a música brasileira de uma ampla investigação das irregularidades do ECAD, e ajudamos o mandato do Senador no contato com outros artistas e movimentos que também debatiam e lutavam por esta nova regulamentação do ECAD. Nosso papel foi o de levar a um parlamentar nossa leitura sobre o tema, e a partir daí ajudar para que o mais pessoas também se envolvessem no percurso legislativo das apurações sobre a entidade, num exemplo de exercício de nosso cidadania.
O que é o Grito Rock?
O Grito Rock é um festival integrado que acontece em centenas de cidade simultaneamente, no período do Carnaval. Iniciado em 2002 em Cuiabá, a partir de 2007 o festival passa a ser realizado de forma simultânea em outras cidades do Brasil, como uma das ações desenvolvidas pela rede Fora do Eixo. De 2007 pra cá o Festival também se espalhou primeiramente pela América Latina e mais recentemente por outras partes do mundo, chegando a 400 cidades e 40 países na edição de 2014. Mais do que um simples festival, o Grito Rock apresenta-se como uma plataforma livre de produção cultural disponibilizada para produtores, e ao mesmo tempo, campo de contato e troca de conhecimento.
Como ele se organiza?
A organização do festival tem como princípios as campanhas divulgadas e a mobilização de produtores pelas redes e contatos previamente estabelecidos. Toda a produção é descentralizada, e cabe aos produtores locais definirem atrações, espaços e relacionamento institucional, integrando-se a uma rede de contatos e estabelecendo trocas para o melhor desenvolvimento de suas atividades locais. O Fora do Eixo disponibiliza sua equipe de música para ajudar na sistematização e organização de uma narrativa integrada, e também para ajudar nos fluxos entre os produtores e os artistas. Desde 2011, as vagas para bandas e os processos curatoriais da maioria dos festivais aconteceram através da plataforma Toque no Brasil, justamente como uma forma de democratizar ainda mais o acesso dos artistas.
Existem patrocínios repassados aos produtores do Grito Rock?
Enquanto marca guarda-chuva o Grito Rock não negocia nenhum tipo de patrocínio e repasse de recursos aos coletivos e produtores. Todas as negociações e administração financeira são feitas pelos coletivos e produtores locais, que tem total autonomia para construir sua ação e captação de recurso. Em algumas edições foi negociada apoios em redes de televisão nacional que faziam chamadas genéricas do Festival. Tanto estas chamadas, como toda a narrativa integrada funcionam como ferramenta local de legitimidade e auxiliam o produtor local na busca de viabilizar sua realização.
Existe alguma taxa de participação?
Não existe nenhum tipo de taxa para participação.
Como realizar o Grito Rock na sua cidade?
Para realizar o Grito Rock o produtor necessita apenas de cadastrar o evento através do formulário de inscrição disponibilizado pelo site do Festival. Mais informações sobre o Grito Rock aqui: www.gritorock.com.br
Como tocar nos eventos realizados pelo FdE?
Como já mencionado as curadorias para os eventos do Fora do Eixo são descentralizadas e para se apresentar os artistas têm que estabelecer relacionamentos com os produtores locais ou inscreverem-se através do portal Toque no Brasil: www.tnb.art.br
Alguns links e artigos sobre a atuação do Fora do Eixo na Música:
POLÍTICA
Como fazer parte do Fora do Eixo?
A adesão ao Fora do Eixo é livre e consciente. A rede possui diferentes frentes de atuação e isso gera também diferentes formas de participação. A entrada para as casas fora do eixo são hoje mediadas pela Universidade Livre, através de editais abertos e processos de vivência de membros de coletivos para que as pessoas possam conhecer por um período determinado a dinâmica de vida coletiva e a partir daí optar por ser um morador efetivo ou não. Caso você tenha um coletivo na sua cidade e queira fazer parte da rede de coletivos, temos um sistema, que é o SAAC (Serviço de Atendimento e Acompanhamento dos Coletivos), onde são agendados reuniões online para tirar dúvidas e encaminhar processos colaborativos e adesão a rede.
Além disso, a rede desenvolve centenas de ações durante todo o ano, e qualquer pessoa, de qualquer idade e classe social tem condição de participar e buscar uma forma de contribuir com os nossos processos, da mesma forma que estamos abertos a desenvolver projetos em colaboração com outras instituições tanto pública quanto privadas.
Para conhecer um pouco mais do Fora do Eixo é só mandar email para [email protected].
Qual o processo de tomada de decisões na rede Fora do Eixo?
O processo de tomada de decisão acompanha a lógica distribuída de rede. Não existe uma centralização dos processos em instâncias decisórias únicas. Temos diversas camadas diferenciadas de tomada de decisão e respeito a autonomia de cada uma dessas camadas e frentes. Nas pontas, nos coletivos, cada um tem autonomia para definir seus processos. Em cada uma das frentes de trabalho as decisões operacionais também são tomadas cotidianamente a partir das necessidades identificadas pelos membros destas frentes. Além disso, realizamos reuniões onlines para nivelamento dos debates e encaminhamento de questões práticas, como a data de um encontro, ou um tipo de campanha de divulgação. Os caminhos e prioridades estratégicas são normalmente definidos em nossos congressos regionais e no congresso nacional, realizados periodicamente. Priorizamos as decisões por consenso, e buscamos ter como padrão de legitimidade o princípio do lastro para a fala, procurando evitar uma moralização do processo de tomada de decisão e identificar na dedicação às ações, o princípio básico de liderança.
Como vocês se encontram?
Durante todo o ano realizamos uma série de encontros. Cada frente realiza imersões e encontros periódicos para tratar dos temas relacionados à sua atividade. Os principais encontros da rede são os Congressos Regionais, que são preparatórios para o Congresso Nacional do FDE, nosso grande encontro anual. Além destes, a rede colabora em vários encontros temáticos que são produzidos conjuntamente com outras redes e coletivos, como o Seminário Internacional da Música, na Feira da Música de Fortaleza, o ELLA (Encontro Latino-americano de Mulheres), o MINKA, encontro internacional voltado para o debate sobre economia colaborativa.
Como sair?
O processo de desadesão segue o mesmo princípio da adesão. Ele é livre e consciente e a pessoa precisa apenas informar sua saída.
Como participar do Congresso FDE?
Para participar do Congresso FDE é necessário apenas fazer uma inscrição online, disponível em período prévio ao Congresso e amplamente divulgado por nossas redes sociais. A participação normalmente é dividida entre membros de coletivos e casas já ligados a rede, parceiros e observadores.
Há votação no FDE?
O Fora do Eixo é uma rede que busca mesclar metodologias e processos de tomada de decisão, entendendo a diversidade e a complexidade dos processos contemporâneos, e adotamos uma dinâmica híbrida. Os posicionamentos macros e alinhamentos políticos e estratégicos são definidos por consenso. Ao mesmo tempo, como forma de dar dinamicidade, e evitar que o processo de tomada de decisões fique moroso por conta de debates puramente retóricos, fazemos votações para encaminhar questões técnicas e operacionais, como a escolha de nomes para projetos, a definição de datas de encontros, ou logos e artes das atividades desenvolvidas, por exemplo. Enquanto uma rede de realizadores, e não teóricos, esta construção de metodologias híbridas é fundamental para ampliar a potência de realização.
Existe um partido formal?
Não existe um partido formal e nem a intenção de monta-lo. O que existe é uma frente de atuação política e articulação interna da rede que recebe o nome de Partido, a partir de uma lógica de criação de simulacros da realidade.
Porque o nome Partido?
O nome Partido segue a lógica de construção de Simulacros para a organização das frentes de trabalho e gestão da rede. Entendemos que os partidos são os espaços de organização política na sociedade democrática, e neste sentido representam no imaginário social este ambiente de mediação das relações políticas. Sua adoção tem também um caráter provocativo, pois aponta também a necessidade de repensarmos estas representações na sociedade contemporânea e renová-las, alertando para o fato de que podem sim existir partidos diferentes.
Quais as atribuições e atividades desenvolvidas pelo Partido FDE?
O Partido Fora do Eixo é responsável por fazer a gestão interna da rede Fora do Eixo, mobilizando seus agentes em relação aos temas e projetos desenvolvidos. É o espaço de fluxo de conteúdo e de organização de ações conjuntas, sendo responsável tanto pelo debate político de elaboração das ações realizadas, quanto pela sua mobilização e operação. Ele é formado por todas as pessoas que compõem a rede e possui gestores locais e regionais, que compõem um conselho nacional que se reúne pela internet periodicamente.
Como o Partido FdE relaciona-se com o sistema partidário brasileiro?
O Partido FdE organiza-se pela lógica de movimento e neste sentido não possui nenhum tipo de relacionamento formal com o sistema partidário brasileiro. O que existe é um diálogo entre o Fora do Eixo e os partidos políticos em torno de pautas e temas que achamos fundamentais e que defendemos publicamente.
O Partido FdE negocia cargos em governos?
Não, o Partido FdE não negocia cargos com governos. O Partido FdE debate programas e políticas e discute com os governos em cima destes programas e não em cima de nomes. Contudo, quando consultados pelos governos emitimos nossas opiniões, seja em relação a temas como também em relação a nomes, como um livre exercício de nossa participação e expressão, e todas as opiniões colocadas são inclusive defendidas publicamente para evitar qualquer tipo de política de intimidação ou cooptação.
Como fazer parte do Partido FdE?
O Partido FdE não é uma instituição que se pauta na filiação de membros. Como colocado em outra pergunta, ele é o espaço de debate, articulação e incidência política dos membros da rede FdE e neste caso, para fazer parte do Partido basta fazer parte da Rede Fora do Eixo.
Qual a relação entre o Partido FDE e o PCult (Partido das Culturas)?
Como colocado acima, o partido FdE é o nome dado a organização política da rede Fora do Eixo, não tendo característica de representatividade e nem fins eleitorais. Já o PCult foi uma construção de alguns movimentos e agentes culturais, durante as eleições de 2010, com o intuito de construir um programa político para a cultura brasileira, e que o Fora do Eixo esteve presente juntamente com estes outros movimentos e indivíduos.
O Pcult foi uma opção tática para tentar aglutinar uma inteligência que pudesse junto debater e propor políticas culturais aos candidatos nas eleições de 2010. Vale lembrar, que a articulação do PCult foi fundamental para a criação de um ambiente de construção conjunta que depois se reuniria novamente em ações como o Mobiliza Cultura, que articulou uma grande campanha de combate ao Ministério da Cultura da Ana de Hollanda, e mais recentemente do que vem sendo chamado de Movimento Social das Culturas.
Qual o posicionamento eleitoral do Partido FDE?
O Fora do Eixo durante o período eleitoral foca suas ações e posicionamento em cima de programas e políticas, e não realiza alinhamento automático com nenhum partido ou candidatos. Esta postura não se restringe ao período eleitoral, mas marca a atuação política do partido FdE integralmente. Nosso exercício é sempre no intuito de articular grupos, movimentos e pessoas, formando uma inteligência coletiva capaz de apresentar de forma propositiva políticas e formas de vida que espelham os princípios e valores contidos em nossa Carta de Princípios.
Existem orientações gerais do Partido FdE para os membros dos coletivos em períodos eleitorais?
Cada coletivo ou membro da rede tem liberdade plena de fazer suas escolhas eleitorais, e não existem orientações verticais. Como foi colocado acima, não existe nenhum alinhamento direto com partidos ou candidatos. O que existe é o acúmulo de debates que orientam políticas que a rede acredita serem prioritárias, e mais do que isso, existe um conjunto de valores compartilhados que sustentam uma visão de mundo, que local, estadual e nacionalmente, podem encontrar eco em candidatos e políticos de partidos diferenciados. Como um novo movimento social que surge a partir da cultura, o Fora do Eixo não se orienta por métodos políticos partidários, e nem mesmo por ideologias e outros métodos políticos estritamente, buscando encontrar no substrato da cultura e da convivência coletiva e colaborativa elementos empíricos que possam lastrear novas políticas públicas e, mais do que isso, repensar o próprio Estado e sistema representativo que tem se mostrado obsoleto e distante das pessoas. Para nós, o elemento cultural é algo fundamental para uma re-conexão entre os homens e a política, enquanto o envolvimento do indivíduo com a sua comunidade. Neste sentido, a política é algo intrinseco a todas as pessoas.
Existem orientações gerais do Partido FdE para os membros dos coletivos em períodos eleitorais?
Cada coletivo ou membro da rede tem liberdade plena de fazer suas escolhas eleitorais, e não existem orientações verticais. Como foi colocado acima, não existe nenhum alinhamento direto com partidos ou candidatos. O que existe é o acúmulo de debates que orientam políticas que a rede acredita serem prioritárias, e mais do que isso, existe um conjunto de valores compartilhados que sustentam uma visão de mundo, que local, estadual e nacionalmente, podem encontrar eco em candidatos e políticos de partidos diferenciados. Como um novo movimento social que surge a partir da cultura, o Fora do Eixo não se orienta por métodos políticos partidários, e nem mesmo por ideologias e outros métodos políticos estritamente, buscando encontrar no substrato da cultura e da convivência coletiva e colaborativa elementos empíricos que possam lastrear novas políticas públicas e, mais do que isso, repensar o próprio Estado e sistema representativo que tem se mostrado obsoleto e distante das pessoas. Para nós, o elemento cultural é algo fundamental para uma re-conexão entre os homens e a política, enquanto o envolvimento do indivíduo com a sua comunidade. Neste sentido, a política é algo intrinseco a todas as pessoas.
Existem lideranças na rede?
…Sim, existem multi-lideranças na rede Fora do Eixo.
Internamente, o processo de construção de legitimidade no Fora do Eixo respeita critérios práticos e está ligada diretamente a capacidade de entrega e disposição de cada indivíduo. Para nós, a busca da autogestão e de construção de processos políticos autônomos está ligado diretamente a necessidade de imprimir protagonismo aos indivíduos, para que cada um possa estar consciente do seu papel em uma organização social. Neste sentido, entendemos que o processo coletivo instaurado pelo Fora do Eixo possibilita a todos os indivíduos o espaço de liderança, a partir do momento que todos têm acesso ao mesmo repertório e aos mesmos conteúdos, e todos estão juntos em processos colaborativos ativos, realizando coisas juntos e podendo assim expressar suas potencialidades. Dentro de nossa arquitetura interna isso também é estimulado com a divisão de responsabilidades, o que faz com que todos os envolvidos respondam pela gestão de alguma frente ou atividade.
Contudo, este mesmo processo que busca valorizar a liderança também busca trabalhar a ideia complementar de “base”, onde o indivíduo também se identifica como colaborador de processos puxados e “liderados” por outros indivíduos. Isso é feito para evitarmos construir um processo que busque dar protagonismo e empoderar os indivíduos, apenas como forma de potencialização do ego. A vaidade e a competição estabelecida em processos que formam lideranças precisa ser ressignificado, e a generosidade e a humildade, enquanto consciência sobre seu papel e potência em cada um dos processos coletivos desenvolvidos, devem ser valorizados. Assim, a capacidade de liderar tem que ser diretamente proporcional a capacidade de cada indivíduo de se disponibilizar a liderança dos outros membros da rede.
O FdE tem intenção de criar um partido político?
Atualmente o FdE não tem intenção alguma de criar um partido político. A rede acredita fortemente na necessidade de reinventarmos e modificarmos os processos de participação no sentido de ampliação da cultura participativa e da democracia direta, e neste sentido a criação de mais um partido político sem uma ampla reforma política não faria sentido, ao mesmo tempo que é fundamental que tenhamos cada vez mais setores organizados na sociedade civil buscando ampliar a pressão para que estas mudanças políticas possam acontecer, e acreditamos ser este o papel do Movimento e do Partido FdE.
O FdE tem intenção de colocar seus quadros efetivos para participar de eleições e ocupar mandatos representativos?
Como já foi colocado, a participação de um indivíduo na rede Fora do Eixo não significa o abandono dos processos pessoais e a escolha de participar de eleições e concorrer a mandatos representativos é algo pessoal, e cabe a cada membro da rede individualmente. Contudo, não faz parte dos planos da rede fazer um deslocamento de nossa potência para a via eleitoral, entendendo que nossa contribuição política está na construção de um movimento politicamente autônomo que possa difundir novas tecnologias sociais e estimular processos de transformação a partir da sociedade civil.
Como é a relação do FdE com outros movimentos sociais e culturais?
Para compreendermos a relação do FdE com outros movimentos é necessário compreender a lógica de trabalho e disponibilização de tempo por parte dos integrantes da rede. Ao constituir um caixa coletivo e um novo modelo de sustentabilidade, o FdE conseguiu resolver a questão da sobrevivência de seus militantes, que passam a ter todo o seu tempo disponível para as atividades da rede. Desta forma, o FdE é um sistema de disponibilização de tempo para lutas e militância. Com este tempo disponível os membros do FdE dedicam-se às atividades da rede como também a atuar conjuntamente com outros movimentos, desde que haja uma correspondência de valores e princípios, e disposição mútua para isso.
O Fora do Eixo não participa de nenhum movimento sem ser convidado, e suas articulações e ações sempre estão abertas para a participação de outros movimentos também. Acreditamos profundamente na necessidade de unirmos uma inteligência para a busca de alternativas, e a construção destes espaços de potencialização e construção coletiva são fundamentais para o sucesso das lutas sociais na contemporaneidade. O FdE não é um movimento vanguardista e acredita que as soluções não vem de teses dogmáticas, mas são construídas em fluxo, a partir da ação conjunta, e é esta visão que determina nossa relação com os demais movimentos sociais e culturais.
Qual a posição adotada pela rede para efetivar diálogos institucionais e relações políticas?
Todas as nossas negociações e diálogos são públicos e abertos. A política de transparência do Fora do Eixo registra e dá visibilidade às nossas ações, sendo este inclusive um dos pontos mais marcantes de nossa rede, que cotidianamente e de forma orgânica publiciza suas atividades.
Diferentemente de uma comunicação e publicização institucional, a noção de cidadão multimídia vivenciada pela rede, conduz a um processo distribuído de registros e coberturas, radicalizando o caráter público de nossas ações.
Construímos uma rede político-cultural pautada em princípios claros, e que tem no comum e na construção coletiva seus pilares, e assumimos o desafio de construir meios de produção próprios para nossa sobrevivência, justamente para garantir a nossa autonomia em relação a estes princípios. Neste sentido, não temos nada a esconder.
Por não ter nada a esconder podemos ousar dialogar com uma diversidade enorme de atores sociais, com um espectro muito amplo, que vai de empresas a moradores de rua, passando por universidades, organizações da sociedade civil, artistas e grupos culturais, e chegando aos mais diversos cidadãos através de nossos veículos de comunicação, como a Mídia NINJA.
Esta disponibilidade ao diálogo, sem receio algum de se expor, entra em choque direto com os padrões estabelecidos. Tanto nas relações no mercado, como dentro de uma lógica política patrimonialista, são os interesses particulares que balizam o diálogo, e não os interesses públicos ou a busca do comum.
No caso do mercado, muitas vezes além de diálogos marcados pela necessidade de atender a interesses particulares, e garantir o “lucro” dos envolvidos, tem-se um espectro competitivo, que normalmente constrói uma equação onde pra um ganhar o outro necessariamente tem que perder.
No caso das relações políticas, o assentamento dos interesses particulares são recorrentemente expressos em acordos fechados, e num ambiente marcado principalmente pela disputa, onde grupos disputam o espaço da máquina pública para dar conta justamente de seus interesses próprios ou projetos políticos.
É justamente esta forma de lidar com a coisa pública que tem sido responsável por acelerar uma crise de representatividade política, ao mesmo tempo, que o individualismo e consumismo da sociedade capitalista contemporânea atomiza e dificulta a possibilidade de nos organizarmos para construirmos novas estruturas que nos possibilitem transformar esta realidade.
É por isso, que cada vez mais é fundamental que novas práticas e novas organizações proponham novas formas de diálogo público, e que não tenham medo de se relacionar com as formas já existentes, garantindo sua autonomia e a capacidade inclusive de transformar os processos dentro destas estruturas.
Não acreditamos em processos messiânicos, e nem na transformação a partir de lideranças individuais, que conduzirão o povo a uma nova consciência e uma nova organização. Acreditamos que este processo deve ser fruto de uma ampla construção coletiva, e neste sentido, nosso diálogo institucional, assim como nossas ações, sempre buscam o envolvimento do maior número possível de grupos e pessoas capazes de encontrarem soluções e desenvolverem práticas conjuntas orientadas por um novo quadro de valores e intenções públicas.
Para nós, esta introdução é fundamental porque ela ajuda a identificar as raízes das críticas e apontamentos feitos ao Fora do Eixo quanto ao diálogo institucional, seja com empresas, partidos, organizações civis, órgãos internacionais e governos.
Estas críticas, que não se baseiam em fatos e provas, e na verdade tentam enquadrar e classificar as práticas de um novo movimento a partir das relações já existentes, ao invés de ter um esforço em tentar compreender as novas relações e a forma de ação deste novo movimento.
Um fato que comprova isso é o uso de registros e de fontes para tentar atacar o Fora do Eixo. Todo o material fotográfico utilizado para criminalizar e tentar sugerir relações perniciosas entre o Fora do Eixo e alguma instituição e/ou partido político são fotos retiradas de nossos próprios perfis e que já tinham sido amplamente divulgadas pela própria rede. Ao invés de estarmos debatendo uma nova prática que procurar expor publicamente todos os seus relacionamentos como uma possibilidade de dar transparência e lisura aos processos políticos, o que se busca fazer é recuperar uma imagem pública, já divulgada pela rede, para incutir uma suposta relação excusa e perniciosa que não existe.
A sociedade brasileira, e principalmente a imprensa, os intelectuais e a classe política precisam ter mais disponibilidade para entender o novo, e sair da posição cômoda de tentar enquadrar novas práticas no mesmo modelo já existente. Esta tentativa recorrente é justamente um dos maiores obstáculos para que possamos superar contradições e velhas práticas, seja na política, seja no próprio convívio social, e deveria ser combatida com o mesmo vigor que as novas experiências são atacadas.
Diante disso, vamos explicitar algumas relações institucionais que a rede desenvolve e que são citadas publicamente para tentar desqualificar ou sugerir relações de cooptação.
Qual a relação do Fora do Eixo com o PT - Partido dos Trabalhadores ?
O Fora do Eixo é um movimento autônomo e não possui alinhamento automático com o PT e com nenhum outro partido político. A abrangente crise de representação política da sociedade contemporânea coloca-nos diante do desafio de tentar construir novas institucionalidades e novos ambientes de organização política, e foi movido por este estímulo que o FDE apostou nos conceitos de “coletivo” e “rede” para delinear sua construção política. Além disso, buscamos construir arranjos produtivos autônomos, com a criação de moedas complementares e um amplo espectro de troca de serviços (remunerados e não remunerados) que garantam nossa independência política.
Ao mesmo tempo, reconhecemos a luta histórica e o processo de construção institucional do Partido dos Trabalhadores, e neste sentido não vemos problema algum em estabelecer diálogo e levar até o partido, seja através de suas lideranças, seja através de sua base, a nossa visão e leitura sobre os acontecimentos de nosso país, assim como o nosso acúmulo de debates e articulações.
A abertura ao diálogo é algo fundamental e princípio republicano básico de construção da democracia. O PT hoje é o maior partido do nosso país e responsável por governá-lo a mais de 10 anos, e abrir mão desse diálogo com independência é abrir mão da responsabilidade enquanto movimento social de fazer incidência real na nossa sociedade, e o Fora do Eixo não abre mão de suas responsabilidades em nome de purismo ou por medo da cooptação.
Uma forma de avaliar esta relação inclusive é acompanhar as declarações públicas de nossas lideranças e ao mesmo tempo a prática e o conteúdo distribuído por nossos canais.
Um exemplo prático disso foi o enfrentamento que fizemos a nomeação de Ana de Holanda para o Ministério da Cultura do Governo Dilma. O protagonismo que o FdE teve no enfrentamento com a ministra veio justamente da independência que tínhamos em relação aos recursos do Ministério, e consequentemente do Partido que ela representava. Temos que deixar claro também que não existem convênios e relações diretas de financiamento não só com o PT como com quaisquer outro partido, que não estejam dentro dos parâmetros legais estabelecidos, e que estas informações não sejam públicas. Não existe nenhuma denúncia formal neste sentido, e nenhum processo em andamento que comprove qualquer tipo de relação econômica envolvendo o FDE e Partidos Políticos.
E com outros partidos políticos?
E com outros paOs mesmos princípios que regem nossa relação com o Partido dos Trabalhadores também determinam a relação com outros partidos políticos. O diálogo define-se a partir do conteúdo e da possibilidade de incidência e neste sentido, as relações não são pessoais, ou movidas por interesses específicos, mas sim determinadas por pautas e políticas claras.
Diante disso, o espectro partidário de nosso diálogo tende para partidos que defendem políticas e agendas conectadas com nossa carta de princípios e que apontam para o combate às desigualdades sociais e formas de opressão e exploração, combate aos preconceitos e valorização do diálogo e da tolerância para a defesa das classes menos favorecidas.
Isso acaba delimitando um campo de diálogo à esquerda. Contudo, diálogo não é a única forma de contato político, e entendemos que tanto no campo da esquerda, quando da direita, é fundamental construir canais de mobilização social para garantir a incidência e a pressão social necessárias para a construção de uma relação altiva entre a sociedade e os partidos e governos.rtidos políticos?
Existe algum manifesto onde podemos encontrar estas teses?
O Partido Fora do Eixo (que não é e nem quer ser um partido formal) é o nome fantasia da frente de organização e sistematização da arquitetura de rede do Fora do Eixo e pelo seu sistema de governança, que se organiza a partir de um conjunto de valores e princípios definidos no 2º. Congresso Fora do Eixo, em Rio Branco, no Acre, e que pode ser lido aqui.
UNIVERSIDADE
O que é a Universidade Fora do Eixo?
A Universidade Fora do Eixo é um projeto de formação, que entende a rede como ambiente de produção, circulação e trocas de conhecimentos. Cada coletivo, festival e/ou evento da rede é considerado um campus da universidade com programações que envolvem debates, colunas, imersões, conferências, seminários, encontros, oficinas, vivências e outras atividades de formação livre.
Para a UniFdE, as vivências são base do processo de aprendizagem. Quando as pessoas circulam e se encontram, elas trocam conhecimentos, saberes e tecnologias. Acreditamos que a formação é um percurso contínuo, ampliador de referências, repertórios e experiências, que compõem a trajetória de vida de cada pessoa.
A adesão à Universidade é livre, espontânea e gratuita. Ao ingressar, a pessoa torna-se um Vivente e/ou Corpo Docente que construirá, em conjunto com os integrantes do campus que frequenta, seu percurso de formação livre. Os percursos duram enquanto houver interesse por parte do Vivente e/ou Corpo Docente.
Do início de 2011 ao final de 2012, realizamos cerca de 70 colunas, 200 observatórios, 150 imersões envolvendo coletivos e parceiros, e mais de 800 vivências que aconteceram em Festivais, Casas e Pontos Fora do Eixo de todo o Brasil.
Os estudantes pagam?
Todas as vivências são gratuitas. Além disso, os viventes recebem hospedagem, alimentação e acesso ao caixa coletivo para despesas básicas e adjacentes durante todo o período de sua vivência.
Como se organiza o corpo docente desta universidade?
O corpo docente da Universidade Fora do Eixo é formado por todos os membros de coletivos e casas FDE e também por parceiros e colaboradores que disponibilizam-se a apresentar repertórios e metodologias aos membros da rede. Entendendo o processo de educação de forma dinâmica, e compreendendo que todos podem ensinar e aprender simultaneamente, o corpo docente também se constitui de forma dinâmica por todos que convivem com a rede, seja de forma mais direta como os moradores das casas coletivas, como de forma indireta em projetos pontuais, ou de forma intermitente mantém contato com os diversos campus montados pela rede durante o ano.
O site da Universidade Fora do Eixo lista dezenas de docentes. Eles recebem?
São colaboradores voluntária/os vindo das diversas redes de parceiros. As parcerias são um dos grandes recursos do Fora do Eixo
Alguém já se formou nessa Universidade?
Acreditamos que a troca de conhecimento é contínua e permanente, ora você aprende ora você ensina. Sendo assim, ninguém se forma na UniFdE, realiza percursos. A duração e a área de atuação dos percursos vão de acordo com o interesse de cada vivente e emitimos certificados, caso seja solicitado.
Como é gerido o orçamento da Universidade Livre Fora do Eixo?
Como toda a rede, a UniFdE tem gestão distribuída. Cada campus tem autonomia de captar e gerir seu próprio recurso e como política da rede, estimulamos a troca e colaboração entre coletivos através de um conselho gestor nacional.
Quais outras experiências de formação livre que a rede se relaciona e se inspira?
Diversas outras experiências de formação livre, tanto de setores culturais, como de movimentos sociais dialogam e inspiram a universidade fora do eixo. Da experiência da escola Florestan Fernandes desenvolvida pelo MST às experiências de formação livres nas periferias, como a Agência de Redes para a Juventude, a Universidade das Quebradas, as experiências desenvolvidas por mestres e griôs estão dentro desse campo de experiências compartilhadas. Outra grande referência é a Escolita, desenvolvida pelos zapatistas, e movimentos de educação popular também alimentam a atuação da Universidade Livre Fora do Eixo.
COMUNICAÇÃO
Qual o papel da comunicação na rede FdE?
A comunicação assim como a Música tem um papel central para o Fora do Eixo. Desde o nosso nascimento, a produção de conteúdo é um eixo estratégico de trabalho e um dos elementos fundamentais para compreendermos o nosso espaço-tempo. Sua importância atravessa tanto a dinâmica interna, sendo o principal canal de fluxos e organização da rede em todo o território nacional, através das diversas ferramentas virtuais, como a dinâmica externa, com a valorização e criação de veículos próprios de comunicação, que tem na Mídia NINJA, o principal desdobramento.
Como se organiza este núcleo de trabalho?
Mais do que uma organização em um organograma específico de trabalho, a comunicação dentro do Fora do Eixo se organiza a partir do conceito de “cidadão multimídia” que expressa a potencialidade de, numa nova sociedade digital, todos os indivíduos serem ativos no processo de produção de conteúdo. Esta noção faz com que todos os membros da rede entendam a importância de narrar sua experiência, produzindo um conteúdo autoral, que somado a todos os demais conteúdos produzidos por estes cidadãos multimídias, formam a narrativa Fora do Eixo.
Qual a relação entre o FdE e a Mídia NINJA?
O Fora do Eixo é uma rede político-cultural que desenvolve uma série de articulações e produções no campo da cultura e da mídia livre há 10 anos. O FdE foi o embrião determinante e fundamental para o desenvolvimento da Mídia NINJA, servindo como incubadora do seu processo e continua sendo o principal responsável por oferecer estrutura e condições de trabalho para os midiativistas ninjas espalhados por todo Brasil. Para conhecer mais sobre essa questão acesse a História da Mídia NINJA.
Qual a relação entre o FDE e a mídia convencional?
As grandes corporações de mídia vivem uma intensa crise. Esse momento pode ser entendido em dois aspectos principais: no âmbito econômico, de um modelo pautado pela venda de anúncios e a circulação física de publicações que não conseguem se adaptar aos novos tempos digitais, e de credibilidade, por anos e anos de omissão e manipulação de informações em prol do poder econômico e de grupos políticos de seu interesse.
Está amarrada a uma linguagem e a um padrão de qualidade que são paradigmas do jornalismo comercial, com pouca abertura para experimentação e adaptação às novas formas de produção e interação com a informação permitidas pela explosão das redes sociais.
Como o FDE lida com a questão da autoria?
Para nós, a autoria individual não é apenas inspiração divina e não existe criação a partir de uma tabula rasa. Todo processo criativo é neste sentido, um processo coletivo. O crédito coletivo é uma opção individual, cada participante da rede, colaborador e criador de conteúdo tem a liberdade de escolher como quer apresentar e assinar seu trabalho.
Acreditamos, entretanto, que nenhuma produção de imagem, vídeo ou qualquer outro conteúdo é fruto da criação de somente um indivíduo, pois está ligada a um processo muito mais amplo que vai desde a concepção coletiva de uma peça até a difusão final de seus resultados por dezenas de pessoas.
Na fotografia, por exemplo, não é possível limitar a ideia de autor ou criador de uma imagem simplesmente àquele que apertou o botão do clique, já que existe um debate anterior sobre a pauta, uma estrutura de suporte para o fotógrafo estar no lugar certo na hora certa, o tratamento, a edição, a postagem e difusão nas redes sociais. Todos os processos são igualmente importantes para que a fotografia se concretize enquanto peça estética e comunicacional, e envolvem dezenas de pessoas.
Contudo esta nossa posição não impede que créditos sejam dados, o que inclusive é um fato comum em nossas publicações, principalmente quando ela envolve agentes externos da rede. É importante deixar claro, que esta posição sobre autoria é filosófica, e que nas operações diárias respeitamos a autoria e creditamos tudo que é solicitado.
Qual a posição da rede em relação aos Direitos Autorais?
Licenciamos toda a produção de conteúdo da rede em Creative Commons, porque não acreditamos em propriedade do conhecimento, mas ao mesmo tempo respeitamos a autoria quando ela é requerida e damos os créditos para textos, fotos e vídeos sempre que solicitados pelo produtor de conteúdo.
Existe algum veículo oficial do FDE?
Temos o site do Fora do Eixo, como a principal referência institucional da rede: www.foradoeixo.org.br. Na música, temos o portal TNB, que serve como grande hub de oportunidades e curadoria para eventos musicais: www.tnb.art.br. E estamos lançando o Portal Ninja: www.midianinja.org
Tem que ser FdE para participar e colaborar com a Mídia NINJA?
Não é necessário ser do Fora do Eixo para participar da Mídia NINJA.
COMPORTAMENTO
Existe algum tipo de normativa para os relacionamentos?
Não existe nenhum tipo de normativa para relacionamentos.
É verdade que as pessoas do FdE só podem namorar com membros da rede?
Não, as pessoas não podem apenas namorar pessoas da rede. Toda a forma de relacionamento é livre. O que existe na verdade é uma visão holística dos processos, e uma organicidade construída diariamente entre as diversas pessoas da rede. Temos que lembrar que vivemos em casas coletivas, que não são apenas locais de trabalho, mas também de vida. Estes espaços são divididos por diversas pessoas, que também compartilham valores e ideais, ou seja, é um espaço também de muita cumplicidade, e onde os relacionamentos também acontecem.
Contudo, a própria experiência de vida coletiva quebra com um modelo de vida baseado na estrutura familiar que organiza também a forma de relacionamento entre as pessoas. Neste sentido, assim como na economia, também estamos num grande laboratório afetivo e abertos a novas experiências e processos, que envolvem tanto relacionamentos normais entre membros da rede, até mesmo opções mais abertas de encontros e relacionamentos com pessoas de fora da rede.
Existem crianças nas casas coletivas?
Sim, existem crianças nas Casas Fora do Eixo. Para entender um pouco mais sobre as crianças do Fora do Eixo veja o texto escrito por Isis Maria, mãe de Benjamin, o primeiro garoto a ser concebido e nascer em uma Casa Fora do Eixo. E o Grupo da Gurizada Fora do Eixo.
Qual a faixa etária dos participantes?
A rede fora do eixo é formada em sua maioria por jovens de 18 a 35 anos, mas possui membros de 01 a 70 anos, e está aberta a participação de qualquer indivíduo.
E o extrato social?
O extrato social é diverso, com uma predomínio de jovens de classe média, e aos poucos pessoas vindas de outros grupos e extratos sociais tem se aproximado da rede. Contudo, o Fora do Eixo é um movimento que se forma no interior do Brasil, fora do eixo cultural das metrópoles Rio e São Paulo, e neste sentido, o caráter urbano apesar de prioritário é fortemente marcado também por raízes no campo e nos povos tradicionais, características do interior do Brasil.
Vale ressaltar que estamos abertos a participação de qualquer pessoa, de qualquer idade, sexo, nacionalidade, gênero, sem qualquer tipo de restrição.
MINISTÉRIO DA CULTURA
Qual a relação do MinC com o desenvolvimento do FdE?
O nascimento da rede Fora do Eixo tem uma grande relação com o Ministério da Cultura de Gilberto Gil e Juca Ferreira, durante o governo Lula. Esta relação tem dois pontos focais: 1) A inspiração conceitual trazida por uma nova perspectiva antropológica de cultura para as políticas públicas, que tem nos pontos de cultura e na cultura digital dois programas fundamentais que alimentaram de conteúdo o Fora do Eixo. 2) O ambiente de participação e estímulo a organização coletiva na cultura, que fez com que jovens do interior do Brasil pudessem se sentir também protagonista na construção de políticas e se estimulassem a construir canais de organização social para esta participação. Estes dois pontos foram fundamentais para que a rede Fora do Eixo pudesse nascer.
Ao contrário do que normalmente é comentando, o estímulo e relação se deu muito mais do ponto de vista simbólico e conceitual, do que a partir do financiamento. Como surgimos durante o governo Lula, não tínhamos uma organização burocrática que nos permitisse participar dos processos de financiamento, que normalmente exigiam 3 anos de CNPJ, o que não condizia com a realidade de mais de 90% dos coletivos da rede Fora do Eixo. Todavia, esta construção paralela, sem financiamento estatal foi fundamental para que a rede construísse sua legitimidade e autonomia, tornando-se inclusive uma forte protagonista no combate ao retrocesso vivido no ministério no primeiro governo Dilma, com a nomeação de Ana de Hollanda, e ao mesmo tempo, um espaço potente que manteve viva a política cultural desenvolvida no período anterior e que tanto nos influenciaram.
Qual a relação dos pontos FDE e o Programa Cultura Viva?
Como colocado na resposta anterior, a relação é de inspiração e simbiose. Mesmo os pontos fora do eixo não tendo recebidos a chancela e o financiamento do estado enquanto pontos de cultura, reconhecemos através de auto declaração, os pontos fora do eixo como pontos de cultura. Politicamente, o Fora do Eixo e os pontos de cultura tem se envolvido em diversas lutas conjuntas, como a de aprovação da Lei Cultura Viva, e também em construções de diálogo com países latinos, que tem também desenvolvido políticas inspiradas na lei cultura viva.
O FDE foi financiado pelo MINC para o seu nascimento e desenvolvimento?
Não, o Fora do Eixo nunca teve qualquer convênio com o Ministério da Cultura. Os recursos recebidos foram através de poucos prêmios conquistados, como o Prêmio de Mídia Livre e bolsa de apoio a pesquisa. O MINC de Gilberto Gil e Juca Ferreira foi inspirador e estimulou o FDE através de suas políticas de participação e não através de financiamento.
E participou e participa de instâncias consultivas e/ou deliberativas dentro do MINC?
A participação do Fora do Eixo em instâncias consultivas aconteceu dentro do processo instaurado dos colegiados setoriais, com a participação na área da Música, com delegados eleitos pela sociedade civil em eleições realizadas nos estados e municípios.
Os pontos FDE são reconhecidos institucionalmente como Pontos de Cultura?
Institucionalmente foram raríssimos casos de coletivos da rede FdE que se credenciaram e foram aprovados em editais de pontos de cultura. Temos apenas o caso do coletivo Massa Coletiva, de São Carlos que em 2009 recebeu esta chancela institucional. Contudo, do ponto de vista empírico e conceitual, reconhecemos que os pontos fora do eixo e as casas coletivas são sim pontos de cultura, mesmo que não tenham recebido a chancela institucional do Estado.